sábado, 5 de novembro de 2011

Os Portugueses






A história moderna de Portugal. O verdadeiro retrato de um povo único, fascinante e contraditório.




Estes são episódios cujo protagonista é o Zé Povinho. É uma espécie de John Bull, um homem do povo português, criado no século XIX pelo ilustrador e jornalista Rafael Bordalo Pinheiro, para representar todas essas intrigantes contradições e idiocrasias do carácter nacional - aquilo a que o historiador Oliveira Martins chamou a «loucura intrínseca» de Portugal.
Fornecendo um canal para o comentário social humorístico do seu criador sobre a injustiça e a corrupção e a respectiva reacção dos portugueses, o Zé Povinho começou como um desenho e é agora muitas vezes representado como uma estatueta de barro vidrado, exposto em bares e cafés, exibindo um rude gesto que faz com que os clientes saibam quais são as suas hipóteses de beber a crédito. É uma caricatura, pintada em pinceladas largas. É atarracado, de braços grossos, um rosto corado, barba por fazer, com um popular chapéu preto redondo e um colete. Incarna os impulsos portugueses, por vezes difíceis de reconciliar - um instável cocktail de, por vezes, paralisantes desejos, uma espécie de "kryptonite" portuguesa. É como se qualquer observação do carácter português tivesse de ser caracterizada pelo seu oposto. São amistosos, mas também irascíveis, deferentes, mas indómitos, apáticos e humildes, duros e ousados, compassivos, mas irados, submissos e belicosos, sempre à espera que a sorte lhes sorria, boa companhia, conciliadores e diplomáticos, bem como efusivos e espontâneos, dados a perder as estribeiras, mas eminentemente sensatos, com a tristeza na alma, mas a jovialidade na sua natureza. Passado um século, a relevância do Zé Povinho não diminuiu. O historiador João Medina acredita que o Zé Povinho «não envelheceu, pois continua a representar algo que está no fundo de nós: a apatia, a falta de interesse, a falta de colaboração».

Retirado do livro "Os Portugueses" de Barry Hatton


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