quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

«Metáforas»


«
- O que achas?
- Estranho.
- «Estranho.» Que critico mais severo és tu!
- Não, Don Pablo. Estranho não é o poema. Estranho é como eu me sinto quando recitou o poema.
- Querido Mario, vamos a ver se ter despachas um pouco, porque não posso passar a manhã toda a desfrutar da tua conversa.
- Como se pode explicar? Enquanto dizia o poema, as palavras iam de cá para lá...
- Como o mar, claro!
- Sim, pois, moviam-se tal como o mar.
- Isso é ritmo.
- E eu senti-me estranho, porque com tanto movimento enjoei.
- Enjoaste?
- Claro! Eu ia como um barco balançando nas suas palavras.
As pálpebras do poeta despegaram-se lentamente.
-- «Como um barco balançando nas minhas palavras.»
- Claro!
- Sabes o que fizeste, Mario?
- O que foi?
- Uma metáfora.
- Mas não vale, porque me saiu por simples casualidade.
- Não há imagem que não seja casual, filho.
Mario levou a mão ao coração, e tentou controlar um palpitar desaforado que lhe tinha subido até à língua e que lutava por estalar-lhe nos dentes. Deteve o passo, e com o dedo impertinente manipulado a cetímetros do nariz do seu emérito cliente, disse:
- Don Pablo, pensa que todo o mundo, quero dizer todo o mundo, com o vento, os mares, as árvores, as montanhas, o fogo, os animais, as casas, os desertos, as chuvas...
- ... Agora já podes dizer et cetera.
- ... Os et ceteras! Pensa que o mundo inteiro é a metáfora de qualquer coisa?
Neruda abriu a boca, e o seu robusto queixo pareceu saltar-lhe do rosto.
- Foi uma asneira o que lhe perguntei, Don Pablo?
- Não, homem, não.
- É que fez uma cara tão estranha.
- Não, o que acontece é que fiquei a pensar.
Afastou com a mão um fumo imaginário, puxou para cima as peúgas que lhe caíam e, espetando o indicador no peito do jovem, disse:
- Olha, Mario. Vamos fazer uma combinação. Eu agora vou à cozinha, e faço uma omoleta de aspirinas para meditar na tua pergunta, e amanhã dou-te a minha opinião.
- A sério, Don Pablo?
- Sim, homem, sim. Até amanhã.
Voltou para casa e, chegando ao portão, encostou-se a ele e cruzou pacientemente os braços.
- Não entra? - gritou Mario.
- Ah, não. Desta vez espero que te vás embora.
O carteiro desencostou a bicicleta do candeeiro, tocou alegremente a campainha e, com um sorriso tão amplo que abrangia o poeta e o horizonte, disse:
- Até logo, Don Pablo.
- Até logo, meu rapaz.
»

Retirado do livro "O Carteiro de Pablo Neruda" de Antonio Skármeta.

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