quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

PORTUGAL - Ensaio contra a autoflagelação


«Portugal vive uma crise financeira de curto prazo, uma crise económica de médio prazo e uma crise politico-cultural de longo prazo. No plano financeiro, é a urgência do financiamento do Estado. No plano económico, trata-se da falta de competitividade internacional da economia portuguesa devido à qualidade da sua especialização (não é a mesma coisa vender sapatos ou vender aviões) e ao facto de estar integrada num bloco económico dotado de uma moeda excessivamente forte favorece as economias mais desenvolvidas do mesmo. No plano político-cultural, trata-se de um défice histórico na formação das elites políticas, económicas e sociais causado por um ciclo colonial excessivamente longo que permitiu durante demasiado tempo o recurso a soluções fáceis para problemas difíceis e a saídas ilusórias para bloqueios reais.
(...)
Sair da crise com dignidade e esperança significa resolver a crise de curto prazo de modo a que se abram caminhos de resolução da crise de médio prazo (crise económica) e a crise de longo prazo (crise político-cultural). Num mundo tão desigualmente interdependente, muito do que será preciso fazer não dependerá exclusivamente de nós. Dependerá de nós na exacta medida em que soubermos identificar as novas oportunidades, exigências e parcerias e criar as alianças com todos os que lutam, tal como nós, pelo direito a viver com dignidade e esperança num mundo que parece estar a transformar esse direito de todos num privilégio de muito poucos.»

Retirado do livro "PORTUGAL - Ensaio contra a autoflagelação" de Boaventura Sousa Santos.

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