quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Teoria da Viagem

«Mais tarde, muito mais tarde, cada qual se descobre nómada ou sedentário, amador de fluxo, de transportes, de deslocações, ou apaixonado pelo estatismo, imobilidade e raízes. Sem o saberem, alguns obedecem a tropismos imperiais, suportam os campos magnéticos hiperboreais ou setentrionais, pendem para nascente, oscilam para poente, sabem-se mortais, é certo, mas comportam-se como fragmentos de eternidade destinados a mover-se sobre um planeta finito - estes vivem de forma semelhante a energia que os trabalha e que anima o resto do mundo; com a mesma cegueira, os outros sentem o desejo do enraizamento, conhecem o prazer do luar e a desconfiança ao global. Os primeiros gostam da estrada, longa e interminável, sinuosa e ziguezagueante, os segundos adoram o solo, sombrio e profundo, húmido e misterioso. Estes dois princípios existem não tanto em estado puro, sob a forma de arquétipos, mas em componentes indiscerniveis no pormenor de cada individualidade.
(...)
Viajar pressupõe não tanto um espírito missionário, nacionalista, eurocentrado e limitado, mas uma vontade etnológica, cosmopolita, descentrada e aberta. O turista compara, o viajante separa. O primeiro fica à porta de uma civilização, aflora uma cultura e contenta-se em vislumbrar a sua espuma, em aprender os epifenomenos, à distância, qual espectador empenhado, militante do seu próprio enraizamento; o segundo esforça-se por entrar num mundo desconhecido, desacautelado, qual espectador liberto, preocupado não em rir ou chorar, julgar ou condenar, absolver ou resolver anátemas, mas sim desejoso de apreender esse mundo do interior, compreender - segundo a etimologia da palavra. O comparador designa sempre um turista, o anatomista indica um viajante.
(...)
Basta sentirmo-nos nómadas uma vez, para sabermos que voltaremos a partir, que a última viagem não será a derradeira.


Retirado do livro "Teoria da Viagem - Uma Poética da Geografia" de Michel Onfray.

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