sexta-feira, 20 de abril de 2012

Um crime na exposição

«JAIME RAMOS TINHA-O PRESSENTIDO, mas não ligara aos sinais que os dias anteriores tinham fornecido em abundancia: uma irritação crescente tomava conta de si a qualquer hora do dia, não como um alarme, mas como um prenúncio de catástrofe. No Porto, apesar de tudo, saberia como reagir, como escapar aquela espécie de indolência que parecia poisar como uma névoa em tudo o que tocava e em tudo o que Jaime Ramos via à sua volta, e que lhe recordava não só a razão porque estava em Lisboa, mas também a razão porque não podia regressar ao Porto quando lhe apetecesse.

- Isto não é uma cidade, Isaltino. Parece um reservatório de funcionários públicos, de jornalistas e de bancários. Repara ali em frente – apontara ele, virado de costas para o centro do seu gabinete de empréstimo. – Vestem todos da mesma maneira, um fato-macaco com gravata, todos da mesma cor, todos com a mesma hora de almoço, todos no mesmo restaurante.

- Há vários restaurantes, chefe.

- Enganas-te. É tudo um único restaurante a esta hora. Que é que comeste de realmente bom desde que chegámos a Lisboa?

Isaltino olhou para a palma das mãos e esticou o indicador:

- Jaquinzinhos fritos.

Depois, o polegar:

- Um bacalhau.

Finalmente o dedo médio:

- E uns bolos de bacalhau.

- Para ti é tudo bacalhau.

- O chefe não gosta de bacalhau.

- Gosto. Mas o mundo não é um grande bacalhau. Há mais coisas. E eles chamam pastéis de bacalhau aos bolos de bacalhau. Como se fosse coisa de pastelaria.

- É só o nome.

- Mas com o nome vem tudo atrás e nós temos de defender os nossos nomes Isaltino. Os nossos nomes e os nossos estômagos. Lembra-te que estamos no estrangeiro.»



Retirado do livro “Um crime na exposição” de Francisco José Viegas.