quinta-feira, 31 de maio de 2012

Uma Semana no Aeroporto – Um diário de Heathrow


«A lei obriga a que todas as noites, por volta das 23:15, o aeroporto seja fechado a todo o trafego aéreo. Nas plataformas de estacionamento, subitamente tudo sossega e se silencia, ficando como deve ter sido há cem anos, quando não havia nada aqui, excepto campos de ovelhas e quintas de macieiras. Encontrei-me com um homem chamado Terry, cuja função é percorrer as pistas de madrugada, para ver se encontra quaisquer pedaços de metal lá caídos. Conduzimos em direcção a um local no fim da Pista Sul, 27L para os pilotos, que Terry denominou como o bem imobiliário mais caro da Europa. É aqui que, a intervalos de 40 segundos durante o dia, num pedaço de alcatrã0 com apenas alguns metros quadrados e já enegrecido com a borracha arrancada aos pneus, que os aviões de todo o mundo têm o seu primeiro contacto com as Ilhas Britânicas. É exactamente neste ponto que se encontram as coordenadas que os aviões antecipam na sua travessia do Sul de Inglaterra: mesmo no meio do nevoeiro mais espesso, os seus sistemas automáticos de aterragem conseguem captar a trajectória de voo planado que é projectada para o céu a partir deste ponto, com a onda de radio a indicar-lhes que poisem as rodas no centro da zona realçada por duas linhas paralelas de luzes brancas.

Porem, neste momento, a calma reina no pedaço de pista que, só por si, é responsável pelo fim da paz e do sossego de cerca de dez milhões de pessoas. Podemos atravessá-lo sem pressa e ate podemos ceder à tentação de nos sentarmos de pernas cruzadas no seu centro, um gesto de partilha algo da excitação sublime de se tocar num cabo de alta tensão desligado, passar os dedos ao longo dos dentes de um tubarão anestesiado ou de nos lavarmos na casa de banho de mármore de um ditador deposto.

Um rato selvagem saltou a relva para a pista, onde estancou por um breve momento, encandeado pelos faróis do jipe. Era do tipo que geralmente encontramos nos livros de crianças, onde são sempre criaturas espertas e bem-humoradas, vivendo em pequenas casas com cortinas aos quadrados vermelhos e brancos, num distinto contraste com os humanos grosseiros, desajeitados, demasiado grandes e ignorantes dos seus próprios limites. A sua presença esta noite na pista iluminada pelo luar foi excelente para sugerir que, quando a humanidade deixar de voar – ou, em termos gerais, deixar de ser -, a terra terá capacidade para absorver as nossas extravagâncias e permitir formas de vida mais modestas.»



Retirado do livro “Uma Semana no Aeroporto – Um diário de Heathrow” de Alain de Botton, um livro que estive para comprar na Feira do Livro de Lisboa 2012 por cerca de nove ou onze euros, não posso precisar, e que acabei por comprar numa feirinha no metropolitano por 3 euros

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